© CRISTINA CANALE 2019

Cristina Canale: Imagens Líquidas

Tiago Mesquita | 2005

A pintura de Cristina Canale é uma figuração que se vale de elementos da abstração. Suas telas são feitas com áreas amplas de cor e quase sem contorno. Estas regiões coloridas se contaminam, são compostas com pinceladas irregulares, que atribuem grandes mudanças tonais à mesma mancha. Em alguns momentos, elas se diluem, em outros se concentram. Essa irregularidade empresta um aspecto líquido, que se aproxima do nebuloso, aos trabalhos. As cores parecem leves, quase impalpáveis. Os elementos podem se dissolver uns nos outros. Mas isso não acontece. As formas macias estacionam uma ao lado da outra, e conseguem se coordenar. Nem tudo se desmancha. Aí, a artista encontra suas figuras, como quando encontramos imagens características ao olharmos para as nuvens ou para os contornos que as ondas deixam na beira do mar.

 

O que Cristina Canale constituí nestas formas líquidas, com um aspecto provisório, são temas tradicionais da pintura, feitos com poses reconhecíveis e disposição regular das figuras. Num trabalho chamado Casal, por exemplo, a artista parte de uma região verde, onde não identificaríamos onde fica o céu nem a terra. Pouco a pouco, elementos planos e rítmicos pontuam a cor. O lugar ganha definição. No meio da tela, a pintora insere a silhueta um pouco embaçada de um casal. O quadro transforma-se numa cena campestre.

 

Os personagens aparecem em poses bastante convencionais, como se fossem retratadas por um lambe-lambe de um parque. No entanto, tudo parece momentâneo, como se a artista tivesse encontrado uma realidade que se desmancha depois que ela vira as costas. Assim que os personagens saem de cena, a paisagem deixa de existir, desmorona.

 

Na tela Casa de Amigo II, formas grandes, planas, feitas com cores escorridas, compõem outro gênero tradicional da pintura: a marinha. Um azul, um preto e um bege chapados, colocados lado a lado, formam uma praia. As formas interagem e atribuem volume umas às outras. A artista insere um barquinho, novamente, no centro da tela, e mais uma vez os elementos puros, um pouco disformes viram figuras, compostas a partir de um tema convencional. Mas isso, não é feito de maneira esquemática, adaptando as formas aos esquemas da figura. Aliás, uma das riquezas deste trabalho é se aproveitar da especificidade dos seus elementos. Características periféricas das formas diluídas compõem a cena. Uma árvore é sugerida por trás do bege. Esse flexiona um triângulo em sua parte superior, que se transforma em casa ao se apoiar em uma faixa marrom.

 

Não deixa de ser curiosa a insistente procura de Cristina Canale por elementos palpáveis nestas pinturas. Sobretudo, porque aqui o que é palpável é encontrado em formatos tradicionais e consagrados da linguagem pictórica. A pintora não abre mão de trabalhar com formas abertas, sem contorno específico e nem desenho prévio, o que lembra alguns trabalhos de Vuillard e até de Munch. No entanto, ela trabalha para que as suas formas planas autônomas convertam-se em sugestões de figura. O resultado é mais radical do que isso, as pinceladas se convertem em imagens.

 

Nos últimos séculos, a arte converteu a realidade em imagens de maneiras muito diferentes. De modo sucinto e esquemático, podemos dizer que um dos elementos comuns do impressionismo francês do século XIX é a aposta numa apreensão subjetiva da imagem. A arte insiste no caráter particular da experiência dos indivíduos, o pintor produz cenas e paisagens que nenhum outro olhar encontraria igual. Mas aí, a apreensão atribuía ao mundo sentidos e significados mais diversificados. A imagem tornava o mundo mais robusto e variado.

 

O trabalho de alguns pintores da segunda metade do século XX, como Gerhardt Richter e Robert Ryman, é quase oposto a esta visão. Estes artistas se dedicam à exploração das estruturas de constituição da imagem. Nos trabalhos de Richter, por exemplo, que têm paralelos com os de Canale, pinta-se não a obra, mas o esquema que estrutura certas formas de olhar e de construir uma linguagem visual. Ele, como a artista, também trabalha com gêneros e linguagens consagradas. No entanto, sua pintura tenta desconstruir essas estruturas. Em algumas obras, repete em pintura o modo de constituição da imagem da fotografia; em outras, pinta a abstração como um esquema. De certa forma, lida com a linguagem pictórica como uma estrutura cristalizada. O artista reitera a impossibilidade de se falar algo dentro deste esquema, assim como a imagem se divorcia completamente de atribuir qualquer sentido ao mundo. É algo impalpável. Essa arte não fala do que é palpável, mas de esquemas descolados da realidade e de estruturas culturalmente sedimentadas.

 

O trabalho de Cristina Canale também lida com imagens. Muitas vezes elas são formuladas de acordo com os esquemas tradicionais. No entanto, diferente de Richter, elas aparecem em uma estrutura diluída, onde ganham uma dimensão narrativa. Em geral, são cenas de situações domésticas. Algumas pinturas se assemelham a fotografias de veraneio. As cenas não dizem nada especificamente. No entanto, a artista trata estas cenas com muitos efeitos pictóricos. As imagens ficam distantes, pois derivam de operações estritamente plásticas. Quando as encontramos, parece ser possível um olhar singular sobre elas. Como quando olhamos fotos de recordação. A casa meio embaçada nos faz lembrar de folhas crespas em volta dela, de uma escuridão que invadia os quartos, o cheiro da rua e a temperatura da cidade. A pintura olha a imagem e os gêneros consagrados da pintura de forma subjetiva, acreditando em uma experiência singular. Do mesmo modo que os impressionistas olhavam o mundo.

 

 

MESQUITA, Thiago. Cat. exposição individual na Galeria Nara Roesler, São Paulo, 2005.