As várias identidades da arte condensadas no ateliê de Cristina Canale
Maykson Cardoso | 2024
A primeira vez que visitei o ateliê de Cristina Canale em Berlim, parei diante de uma pequena tela. "Parece um haicai, éde um minimalismo, de uma economia. E essas pequenas manchas vermelhas nesse chão branco são como vestígios de um trágico acidente na neve". Ela sorriu e me respondeu: "Engraçado, onde você vê neve, eu vejo uma chuvinha caindo no agreste, e aqui, nessas manchinhas verdes e vermelhas, o agreste voltando à vida."
Essa abertura de Cristina para o olhar do outro em relação à sua obra é a marca de sua "ética de trabalho". A artista não parece sequer querer exercer domínio sobre a pintura, mas se deixar conduzir por ela e pelo acaso.
Assim, a pintura parece assumir, para ela, a mesma posição de um outro. Ou seja, ela se coloca diante da tela com a mesma postura que mantém enquanto artista diante de seu espectador. E não há nisso nenhuma dimensão esotérica, pelo contrário: é por compreender o que há de material na pintura, que a artista sabe que não só o corpo a corpo entre ela e a tela, como também tudo o que está ao redor pode afetar esse processo e surpreendê-la. É comum, por exemplo, que ela comece um quadro no inverno que só poderá ser terminado na primavera, quando a luz do sol aos poucos volta a brilhar sobre Berlim.
Cristina tem consciência de que nunca trabalha só, mas com a plasticidade da tinta que criar transparências, sobreposições, crispações. Com a incidência da luz que determina a vibração exata da cor desejada, com os pelos do pincel que arrastam a tinta, deixando o rastro de sua mão na superfície do tecido.
É por ter essa consciência que a artista pode até ter alguma ideia de como começar uma pintura, mas nunca sabe como ou quando vai terminá-la.
É por isso que Cristina costuma dar alguns passos para trás para ver a pintura a certa distância, como se a obra devolvesse o olhar e dissesse: "agora sim, estou pronta". Em seu ateliê, olho uma tela e lhe pergunto: "Essa aqui, já acabou?"
"Essa aí ainda não, falta alguma coisa, não sei dizer o quê", ela me respondeu. Pode-se conjecturar que talvez a luz do sol em certo momento da manhã lhe trará alguma resposta, dada pela pintura desde que ela dê, como sempre faz, um passo para trás.
Quem quer que encare as pinturas de Cristina, saberá que mesmo aquelas que se mostram mais figurativas apresentam imagens que, de algum modo, se desbordam. A artista costuma dizer que sua pintura vai do figurativo ao abstrato, e arrisco dizer que a passagem entre um e outro por vezes acontece em uma só tela.
Naquelas obras em que pinta faces, não se pode reconhecer face alguma, há ali apenas o prenúncio de uma face que está sempre por vir. Seus retratos não retratam, mas há neles uma desidentificação. E por serem a face de ninguém, podem ser a face de qualquer um. Já ouvi pintores de diferentes gerações constatarem a admiração que têm pela habilidade com que Cristina é capaz de criar sobreposições. Se isso é verdade no que diz respeito às camadas pictóricas, também o é em termos de produção de imagens e, portanto, de sentidos e significados.
Pois há em sua obra uma suspensão deliberada do sentido, não em termos de uma falta deste, mas de uma abertura poética radical que possibilita não só a sua permanente ressignificação, mas que ali, como no caso da tela "Chuva no Agreste", uma coisa possa ser ela mesma e o seu contrário.