© CRISTINA CANALE 2019

Uma Genealogia da Paisagem

Lisette Lagnado | 1990

Cristina Canale, jovem artista carioca que está realizando em São Paulo sua primeira exposição individual, é fruto de um ambiente que influenciou uma fatia considerável da produção cultural dos últimos anos.Quantos já não anunciaram em seu currículo que participaram da mostra Como vai você, Geração 80?[1] Felizmente, as telas mais recentes de Canale demonstram que deslocou a exuberância juvenil daquela época em desafio estético. Seu percurso atual tem a qualidade de colocar um problema : será possível pintar paisagem hoje?

 

A exposição é corajosa. Cristina Canale apresenta paisagens onde mescla assuntos diversos: um tema acadêmico, composições impressionistas e técnicas neoexpressionistas. O fato é que as exigências da modernidade descartam (de maneira preconceituosa) o tratamento de questões “velhas”. Apenas como lembrete: as antropometrias do “mitológico” Yves Klein (onde mulheres lambuzadas de tinta imprimiam a marca de seu corpo sobre uma superfície) foram inicialmente apontadas como um retorno à tradição do nu.[2]

 

Interessa verificar como Canale altera a conhecida linguagem da paisagem para acrescentar seu depoimento às heranças acumuladas. Retratada aqui a natureza já não é contato direto com o fenômeno físico, nem cenário. A pintora enxerga o mundo pela representação na história ( o que seria dos artistas sem a reprodutibilidade técnica?). Deste modo, Canale trocou a contemplação telúrica por exames minuciosos dos românticos, alemãs ou japoneses, em livre trânsito de Anselm Kiefer a Claude Monet, da Renascença às edições da National Geographic. Essa inversão do mecanismo do olhar talvez seja um dos motivos pelos quais tão poucos artistas da pós-modernidade tenham se preocupado em ressaltar o fundo da figura, em cavar além da superfície, e tenham permanecido na figuração e na ilustração. Há falta de perspectiva, em todos os níveis.

 

Canale pinta com a tela apoiada no chão. Portanto, não remete à pintura de cavalete; portanto, deve imaginar paisagens sem avistar horizontes. Como isso é concebível? Há qualquer coisa dos drippings de Jackson Pollock nesse procedimento[3] - uma intriga entre o abstrato e a construção da imagem dentro da qual Canale está mergulhada. Desespero útil e competente. A artista saiu-se bem ao efetuar o metabolismo das figuras geometrizadas de sua série anterior, conquistando o vocabulário do projeto paisagístico: seus elementos (cachoeira, jardim, arquipélago) impõem uma força metonímica.

 

Por que tão obsessiva busca pela sensualidade da materia? Afirmação de uma procura dotada de características próprias? O ofício, nada intimista, requer gestos amplos e muito sour. As telas se equilibram entre fartura e economia. É certo que Cristina Canale poderia se lançar em superficies ainda mais barrocas- como outra artista carioca, Adriana Varejão, que também verteu temas acadêmicos para uma forma up-to-date.[4] Com a diferença que os excessos de Canale não se tornam excessivos: há sempre uma borda fundamental de céu ou de terra sem a qual a paisagem não garantiria seu sustento.

 

Quando finalmente erguida a tela do chassi, por um efeito que parece mágico, surge um horizonte possível, e a indefinição inicial do desenho deixa de preocupar porque uma paisagem complexa substituiu a idade caótica da gesticulação. Quanto ao espectador, prosseguirá na perplexidade, sem saber se está desfrutando um fragmento dilatado ou um panorama. Tanto melhor. O lugar para olhar ou ser olhado não é o único.

 

Percebe-se, então, o quanto o artista moderno pode comprazer-se em polir vestígios do passado, na germinação de estilos híbridos. Por suas mãos, incursões pela cor e pela tinta vêm consolidar a possibilidade de dar novo vigor à genealogia da paisagem- mesmo com o (aparentemente ) velho binômio tinta/tela e mesmo por caminhos tortuosos. “Antes” explica ela, “a matéria obedecia à imagem; agora, a imagem já obedece à matéria.”

 

A material se transforma, assim, em valor. Vale contudo fazer a seguinte ressalva: Cristina Canale não se apresenta como pintora “matérica”, no sentido de obter seu assunto a partir da fatura da pintura.[5]Fazendo uso de uma paleta sem melancolia (matizes rosados ou violáceos, verde-azulados e azul-esverdeados), eis uma pintora que desperta o espírito da cor na matéria, afastando-se da monocromia cheia de sombras e comum entre colegas de sua época.

 

 

Texto originalmente publicado no catálogo da exposição individual na Galeria de arte São Paulo, 1990, e revisto pela autora em 2011.

 

[1] „Como vai você, geração 80?“, Escola de Artes visuais do Parque Laje- EAV/Parque Laje,Jardim Botânico, Rio de Janeiro. 1984. o evento com curadoria de Paulo Roberto Leal. Marcus Lontra, e Sandra Mager, reuniu 123 artistas.

[2] „Antropometria“: termo inventado em 1960 pelo crítico Pierre Restany (antropo:homem e metria:medida) para nomear o que o que Yves Klein designava como “a tecnica dos pincéis vivos”.

[3] Jackson Pollock é outro pintor “mitológico” revisitado na obra de Cristina Canale.Dripping:do ingles to drip, gotejar.sa técnica lhe é atribuída desde o final de 1945em diante, embora historiadores mencionem antecedents verificáveis em telas de Max Ernst de 1942. Cf.William Rubin, “Jackson Pollock and the modern tradition”.Artforum, fevereiro,marco e abril de 1967.

[4] Foi eliminada uma frase da versão original.Mais de vinte anos depois, a comparação entre a pintura de Cristina Canale e Adriana Varejão mereceria comentários mais apurados, porém descabidos na presente publicação.

[5] „pinturamatérica“expressão atribuída em São Paulo ao atelier Casa 7 (1982-1985). No plano internacional Antoni Tàpies era considerado figura de proa de uma corrente posteriormente redefinida na pintura neoexpressionista de Kiefer. No Brasil, a questão da matéria, em oposição à Geração 80 do Parque Laje, encontra seus predecessoresem Mira Schendel e Iberê Camargo.