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A referência como perda de referência 

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Elvira Vinga | 2006

 

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Prisioneiros do gerúndio, estamos sempre sendo. Nunca somos. Em épocas de identidades menos líquidas, tínhamos pelo menos o consolo da inveja. Almejávamos incorporar ou destruir – ambos os impulsos na verdade um só – quem nos parecia solidamente plantado em um território/uma história. Quem tinha uma cara. 

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Cristina Canale volta a esse tempo. Mas apenas para nos indicar um outro caminho que não o do Édipo, que destrói/perpetua o pai. Ou, em termos mais locais, o da antropofagia. Caminhos esses, aliás, hoje inúteis. Não foi o Édipo quem mudou, mas o pai, agora tão de passagem e elusivo quanto seus filhos, todos se entredevorando indiferenciados e ininterruptamente em ondas de ressignificação cada vez mais rasas e mais abrangentes. 

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Cristina volta à grande pintura européia. Mas ela sabe que se não conseguimos ser nós mesmos, muito menos conseguiremos ser um outro – que, para começar, não mais existe. Não‚ em posição de subalterna que ela repete o Paul Klee de Diante dos portais de Kairuan. Sua volta inclui os cantos dos quadros, os pingos soltos, a agressividade das pelotas de tinta, pedaços nus de tela, os traços do lápis. Que são dela e de Klee, igualzinhos. É onde está o significado do que faz. Não luta contra, nem consome. Não é mais uma dualidade, não existe mais o europeu e o periférico. 

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Antes, bem antes, de uma morfologia, Canale deixa registrado um impulso animal é na definição de Deleuze-Guattari: o movimento de escape que contém uma intensidade cuja validade está em si mesmo, antes de qualquer formalização, qualquer significado ou significante. A matéria sem forma dos signos que não significam. É essa sua sugestão de identidade. 

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Há três posicionamentos em relação a identidades culturais. No primeiro, há a proclamação de uma supremacia do que é visto como um grupo coeso – racial, territorial, cultural ou religioso. No segundo, não se vê mais tão claramente tal grupo, mas se mantém a nostalgia de um passado em que ele teria existido e que seria considerado mais puro, autêntico, uma época de ouro, com a adoção de signos que remeteriam a isso. No terceiro, há a insatisfação – e a conseqüente busca repetitiva – de signos que não mais são capazes de oferecer uma alteridade/identificação. 

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É desses três posicionamentos que Canale escapa. Ela mantém referentes claros, uma casa, pessoas, um barco. E é nas referências que o caldo engrossa. Ao se referir a Klee em 2006, o próprio código que estrutura seus referentes antes tão claros passa por uma mudança que implica em um novo significado para barco, casa e pessoas. Diz que o que nos une é um impulso, o que ainda nos faz humanos e irmãos‚ o animal que compartilhamos. Ao se aliar dessa maneira pré-lingüística a uma tradição cultural a que nos acostumamos a reagir sempre de dois modos, deixando-nos seduzir ou querendo destruir, Canale sai da impossibilidade de pintar. Não fosse isso, seria impossível fazer figuras a partir de manchas de cor, não fazer figuras a partir de manchas de cor e também seria impossível pensar em qualquer outra coisa que não fossem figuras – a serem feitas ou não – a partir de manchas de cor. 

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É uma ação que se nega ao político, ao coletivo, e que não busca uma reestruturação das relações ideológicas atuais, embora seja o resultado concreto das relações ideológicas atuais. 

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Mas ao dizer que quem repete/imita/destrói tem o mesmo poder e divide os mesmos impulsos de quem é repetido/imitado/destruído, Canale vai contra uma idéia, ainda resistente, de estrutura cultural do tipo hierárquico e piramidal. E sugere relações de poder baseadas em uma vizinhança ocasional, aproximações temporais ou espaciais, compartilhamentos éticos – perigo e revolução do ponto de vista de qualquer status quo. 

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A galeria Silvia Cintra mostra, de Cristina Canale, cinco pinturas em grandes dimensões – Colombina, Petrópolis, Menina e pescador, Paparazzi, Garryson – e uma sexta, menor – O pescador. Esses títulos nomeiam as figuras que, como nos ensina a lingüística, só significam se houver um espaço entre elas. No caso, o espaço dos pingos e dos rabiscos. 

© CRISTINA CANALE 2025
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