© CRISTINA CANALE 2019

Sobre a pintura de Cristina Canale

Eliana de Simone | 1999

A obra de Cristina Canale representa um dos aportes mais interessantes . cena da pintura brasileira atual. Surgida com a chamada Gera..o 80, que marcou entre n.s um vigoroso retorno, ap.s repetidos e infundados an.ncios de “morte da pintura”, Canale inicia seu percurso renovando a tradi..o da paisagem.

 

Seus trabalhos do per.odo entre 1989/92 mostram cenas observadas a partir da dist.ncia: s.o ilhas, arquip.lagos, vales, vulc.es e quedas-d’.gua, onde a parcial dissolu..o da imagem aponta um claro ind.cio de abstra..o. Caracter.sticas basilares desse per.odo s.o a compacta materialidade e solidez das telas de grande formato.

 

Pouco a pouco o interesse da artista direciona-se ao particular. Como se escolhesse recortes de suas paisagens e os observasse atrav.s de um zoom, Canale introduz uma esp.cie de lente de aumento imagin.ria, que “explode” o detalhe, reduzindo-o a fragmento, numa atitude quase cient.fica de investiga..o da mat.ria e da forma; inicia-se, ent.o, uma pesquisa que se concentra, sobretudo, nas formas org.nicas: trata-se de elaborada representa..o de flores, frutos, brotos, sementes e ornamentos, que se define no limite entre a abstra..o e a figura..o. A partir de ent.o, a linha adquire um valor independente, o linearismo e seu contraste em rela..o aos planos passam a assumir um papel central na obra de Canale; as densas massas de cor das paisagens anteriores se suavizam, ganham transpar.ncia e fluidez. Elementos fundamentais desse relevante segmento de obra, que perdura at. 1997-98, s.o a interpenetra..o de formas, a superposi..o n.o hier.rquica de estruturas lineares e superf.cies crom.ticas, assim como uma .ntima aproxima..o . abstra..o. H. uma evidente independ.ncia do tra.o em rela..o . pintura: o olho decomp.e o que a artista assembla.

 

Na atual s.rie de obras de Cristina Canale percebe-se uma manifesta vontade de concis.o: imp.e-se o predom.nio de uma forma ou superf.cie crom.tica principal, que subordina os elementos subjacentes. Essa importante transi..o, contudo, ocorre de maneira gradual, depois da volta a uma peculiar concep..o de paisagem onde elementos priorit.rios j. se definem: trata-se de “marinhas” quase abstratas, que mostram em primeiro plano moluscos, flores-conchas, carac.is. Essas “est.rias do mar”, t.tulo dado pela artista a uma de suas telas pertencentes a uma recente exposi..o na Alemanha1 , permanecem em estreita rela..o formal com obras anteriores: persistem modalidades t.cnicas como a transpar.ncia, o efeito fluido, assim como as caracter.sticas gestuais e caligr.ficas tomadas de empr.stimo da aquarela. No presente segmento, denominado “Interiores”, o limite da abstra..o se distancia consideravelmente. Antes o fluxo pict.rico acentuava as qualidades inerentes da cor, cuja presen.a material concorria com a figura..o, sobrepondo-se a esta; agora, a figura imp.e-se .s massas de cor, subjugando-as. A sempre presente forma org.nica metamorfosear-se em poltronas e sof.s, quase sempre ambientados sobre fundos que remetem .s paisagens marinhas, deixando entrever coer.ncia program.tica e persist.ncia na busca de uma organicidade ancestral.

Nos “Interiores” o sistema espacial de composi..o se modifica, tornando-se mais concentrado, conciso; o elemento central, densificando-se, estabelece uma nova rela..o  entre harmonia de conjunto e valores pl.sticos individuais. A dimens.o de transi..o contida nos “Interiores” torna-se claramente vis.vel na obra “Poltrona anos ‘60’” (1999, t.cnica mista s/tela, 144 X 160 cm), que est. em estreita rela..o, seja do ponto de vista composit.rio como na solu..o das cores, com a tela “Al Mare” de 1997 2 . Em ambas as obras, das transpar.ncias azuis do fundo surgem formas escuras, compactas e dominantes; as incertas formas org.nicas, entre o floral e casulo de “Al Mare”, agrupam-se, coagulam-se transformando-se na “Poltrona anos ‘60’”, onde numa busca da solu..o formal o objeto adquire maior autonomia; sua intensa materialidade vem, contudo, relativizada por pequenos recortes de superf.cies crom.ticas incorporadas ao fundo, nas margens da tela. Se em “Al Mare” o ritmo da obra vinha conferido pela multiplicidade e diversidade de elementos, na “Poltrona anos ‘60’” este adv.m do equil.brio entre equival.ncias de formas e .reas de cor.

 

Essa recente reaproxima..o . figura representa uma significativa mudan.a conceitual na obra de Cristina Canale; a defini..o crom.tica, contudo, permanece uma quest.o central para a artista, colorista par excelence . E esse nos parece o pressuposto b.sico de sua pintura, a coer.ncia e o cerne de sua original e personalizada linguagem visual.

 

*Publicado no catálogo da exposição individual na Galeria São Paulo, em 1999, São Paulo.

 

1 “Meeresgeschichte” (estória do mar), 1999, técnica mista s/tela, 100 x 145 cm; obra reproduzida no convite para a exposição realizada na Kunstverein Bretten, maio/junho 1999.

 

2 “Al Mare”, 1997, técnica mista s/tela, 150 X 170 cm; obra reproduzida no catálogo de exposição Peinture - Trau deine Augen, Stiftung Starke, Berlin, maio 1997 (Cristina Canale, Rolf Behm, Roland Deleau e Jean-Yves Klein).